Vamos para mais um dia de viagem neste “Belgian holiday”.
Hoje passamos pela Duvel, beberemos cerveja de 20 anos e vamos visitar as duas últimas trapistas que faltavam na região: Westmalle e Zundert.
Quem lembra do post da semana passada e do plot twist que acabou salvando o que tinha sido um dia desastroso em Bruxelas, sabe que nesse ponto estávamos saindo da Brouwerij Bosteels bem alimentados, com destino Antwerpen (Anvers – FR, Antuérpia – PT). No caminho entre um e outro, estava a fábrica da Duvel (Brouwerij Moortgat).
Era uma 2a feira de tarde e tentamos passar lá pra ver o que encontraríamos. Chegamos na parte dos fundos da fábrica e parece que tem uma loja pequena deles que deve vender produtos da marca, mas estava fechada. Vimos as docas de carga e descarga e os barris cheios de cerveja pronta pra ir pro bar. Demos mais umas voltas e entramos numa espécie de estacionamento com escritórios da Duvel em volta e um janelão no prédio ao lado que dava pra ver muitos e muitos tanques de fermentação, inclusive com etiquetas do lado dizendo qual tipo de cerveja estava lá dentro.
Preferimos não abusar da sorte do dia e fomos em direção à auto estrada para chegar em Antwerpen ainda de dia. A fábrica da Duvel é gigante e a parte bonita mesmo fica virada pra estrada. Tem um letreiro enorme na parede externa escrito “ssst… hier rijpt den Duvel”, algo como “ssst… aqui amadurece o Diabo”.
Viagem curta e 25 km depois estávamos no Ibis Budget Antwerpen Centraal Station (48,78 euros com impostos e sem café da manhã). Quem já ficou em um Ibis Budget sabe como é, igual em todos os lugares, então não vou detalhar muito o hotel. Ele fica perto da estação central e ao lado de um supermercado Lidl. Dá pra deixar o carro no estacionamento da estação e pagar as diárias separadamente.
Depois de descansar um pouco saímos para caminhar e para beber. Eu tinha pesquisado antes de viajar e encontrei o bar Kulminator (Vleminckveld 32) nessas pesquisas. O bar deve ter uns 40 anos de idade e ficava a 2 km do hotel. Como ainda era dia fomos à pé mesmo. Chegamos e demos de cara com a porta fechada, só abria depois das 18h se não me engano.
Sorte que o centrinho histórico da cidade é perto e aproveitamos para turistar um pouco e tirar umas fotos. Muito bonitos os prédios antigos e igrejas. Antwerpen vale a pena uma visita.
Depois de caminhar tanto, precisávamos fazer um pit-stop estratégico… mas aonde achar um banheiro? Não tinha shopping por perto, então o negócio foi apelar para os restaurantes em volta. Entramos em um restaurante italiano, sentamos e para não ser muito sacana pedimos uma bebida. A Tai ficou na água, mas vi no cardápio que tinha algumas cervejas e pedi uma witbier. A cerveja veio no copo da Hoegaarden, mas não parecia que era essa cerveja. Pelo menos eu achava que não era. Quando perguntei pro garçom qual a marca, ele afirmou “hú-ghaar-den”. Que diferença do que estava acostumado! Muito fresca, saborosa, aromática. É outra coisa beber uma cerveja local fresca na pressão, sem ela ter viajado e chacoalhado meio mundo até chegar cara nas nossas mesas no Brasil. Foi a melhor Hoegaarden que já tomei.
Deu a hora e voltamos para ver se o Kulminator já tinha aberto. Tanto aberto que já tinha clientes lá dentro. O casal de velhinhos nos recebeu bem, mas percebi que quem comanda o negócio mesmo é a senhora. O senhorzinho fica por lá zanzando, já ela atende as mesas, faz o serviço, cobra… não para quieta.
E que bagunça! Parece um episódio do “Acumuladores” do Discovery. Livros e mais livros velhos espalhados por tudo (Guinness Book 1994 e como usar Internet Explorer 4, só pra exemplificar), placas e decorações cervejeiras nas paredes de qualquer jeito, planta de lúpulo pendurada nos cantos, o bar abarrotado de copos e garrafas. Era muito caótico pra poder explicar, mas ao mesmo tempo era legal demais!
Pedi o cardápio e veio uma pasta preta de plástico, tipo aquelas que o pessoal põe partituras e cifras de violão. Muita, mas muita variedade de cerveja e um detalhe importante: Eles tem cerveja envelhecida! Não só 1, 2 anos não, tem coisa bem mais antiga. Além de raridades, como as La Trappe Quadruppel Oak Aged de anos anteriores.
Além disso, dá pra pedir um “trio degustação vertical”, que vem uma cerveja de cada ano. Foi isso que fiz e pedi o trio da Chimay Bleue. Veio uma de 2015, uma de 2005 e uma de 1995!!! Caramba, cerveja de 20 anos de idade! O Brasil tinha recém sido tetra e o casal comprou essa cerveja, deixou guardada bonitinha todo esse tempo pra este que vos escreve abrir numa 2a feira. A Tai não estava muito boa para beber nesse dia, mas deu uma provada das minhas também.
E qual o veredito dessa degustação? A 2015 estava boa, como estamos acostumados, bem marcante. A 2005 estava no seu auge, era a seleção brasileira de 70, com Pelé fazendo aquele corta-luz no goleiro mas marcando o gol. Já a de 1995 começava a apresentar sinais da idade. Tinha decaído em relação à 2005, mas ainda assim estava melhor que a 2015, mais madura. Sensacional essa experiência. O preço não é baixo, mas é mais que justo. O engraçado é ver a data de validade expirada à tempos e você bebendo aquilo. Parte de mim pensava “tomara que não dê dor de barriga”.
Estávamos numa mesa para 4 pessoas e o bar essa altura já estava cheio. Nisso um casal perguntou se poderia sentar conosco e claro que aceitamos. Depois de um tempo percebi que eles não estavam falando holandês, francês, alemão, muito menos inglês e perguntei de onde eram. Da Dinamarca! Além do trabalho normal deles (que não lembro qual era), eles tem uma loja de cerveja especializada em cervejas belgas. Uma coisa que percebi nessa viagem é que “cerveja belga” tem o mesmo status que “vinho francês”. Acho que aqui no Brasil a gente não dá tanto peso pra isso (pelo menos eu não dava até então), mas a cerveja belga realmente tem um status de refinado, superior, assim como o vinho francês.
O papo com o casal fluiu bem mas minhas cervejas acabaram. Decidi pedir mais uma e fui de Orval 2005. Bela cerveja! Com 10 anos o “bretta” já diminuiu bastante, ela estava mais neutra, equilibrada, menos soco na cara e mais cafuné (que poético!).
Terminada a noite e os euros, nos despedimos do casal dinamarquês, do bar e voltamos para o hotel. No caminho a fome bateu e encontramos um Quick aberto. Essa rede de fast-food belga está presente nos países próximos também e é nível McDonalds. Mata bem a fome.
Depois de uma boa noite de sono partimos para conhecer as duas últimas trapistas da viagem. Primeira parada: Westmalle (ou veste mole segundo o Gustavo).
Já ouviu o Beercast 91? Eles provaram a Westmalle Tripel. Confere lá!
O mosteiro e cervejaria da Westmalle (Antwerpsesteenweg 496, Westmalle) fica a 33 km de Antwerpen e quando chegamos demos de cara com uma fachada imponente da fábrica e um cheirinho de malte cozinhando que chegava a roncar o estômago. Não tinha recepção e a porta estava fechada, então não tentamos entrar. Contornei o mosteiro e cheguei nas docas de carga e descarga. Pude ver os engradados e barris de Westmalle prontos para serem entregues e degustados.
Não chegamos a ver o mosteiro por dentro, só uns prédios por fora e não conseguimos encontrar nenhuma loja, mas perto do local do mosteiro-fábrica, do outro lado da rodovia, existe o Café Trappisten, que pertence à Westmalle e é um restaurante bem grande e bonito. Perfeito, pois já era hora do almoço.

Fechada da Westmalle, engradados prontos pra serem levados e espaguete à bolonhesa com Westmalle Half & Half
Pedi um espaguete à bolonhesa e a Tai uma lasanha vegetariana. Para beber, pedi uma Westmalle Half & Half, que é uma mistura de Dubbel + Tripel e muito saborosa. Acompanhou bem meu espaguete, que também estava muito bom.
Como eu já tinha comprado a taça da Westmalle no Bierhalle e como não tinham cervejas diferentes das que recebemos por aqui, acabei não levando nada. Fomos embora e nos despedimos da Bélgica pela última vez nessa viagem. Deu vontade de ter ficado por lá mesmo.
Agora estávamos de volta na Holanda e a caminho da Abadia Maria Toevluch (Rucphenseweg 38, KC Zundert), responsável pela cerveja trapista Zundert. Mais 30 km e chegamos na humilde abadia. Eles possuem estadia também para quem quer passar uma noite por lá e vi pessoas chegando com mala. Na entrada, uma lojinha de artigos religiosos, comidas e coisas relacionadas com a cerveja. Comprei uma cerveja e um abridor e o monge no caixa (que estava fazendo um jogo de Sudoku) brincou comigo que eu tinha que comprar o copo também, senão como iria beber? Mas eu já tinha comprado também na Bierhalle, então tudo certo.
A Tai comprou mais alguns artigos religiosos e na hora de pagar perguntamos se ele poderia abençoá-los. Ele falou ELE que não poderia, mas pediu licença que iria lá dentro pedir para outro monge, que esse sim tinha o poder. Ao voltar, o “monge do Sudoku” nos contou que o monge que abençoou as medalhas e terços estava de aniversário naquele dia, 94 anos!
Perguntamos se poderíamos conhecer a igreja da abadia e a resposta foi sim. Saímos da loja e fomos até a igrejinha, mais ao fundo. No caminho havia um monge velhinho varrendo folhas no chão. Mas ventava DEMAIS!!! (Pensei em fazer um trocadilho dizendo que ventava pra diabo, mas preferi não cair nessa armadilha). Quando passamos por ele, ouvimos ele falar algo. Não entendemos, pois falou em holandês. Ele então nos ofereceu a vassoura para ajudá-lo, e fez sinal que não adiantava de nada varrer, porque o vento sujava tudo de novo.
Enquanto que eu ficaria puto se fosse comigo, ele estava lá sorridente (mesmo com poucos dentes na boca) fazendo pouco caso da situação. Puxou mais conversa conosco, mas não tinha como entender nada. Consegui soltar um precário “Ik spreek niet nederlands” (eu não falo holandês). Automaticamente o monge virou e começou a falar só com a Taíse! Foi muito cômico!
Meu cérebro fritou mais um pouco e soltei um “Wij komen uit Brazilië” (nós viemos do Brasil) e finalmente ele entendeu que não ia rolar papo, por mais que gostaríamos. Nos dirigimos para a igreja e ele veio junto, abriu a porta pra nós. Uma igreja bem simples, paredes brancas, similar a outras trapistas que havíamos visitados. O monge desapareceu por entre as portas e logo fomos embora também.
Próximo post: Rotterdam e finalizamos as férias de volta em Amsterdam, antes de vir embora. Semana que vem fecho a série. Até lá!
Trajeto do dia
Cervejas relacionadas
No Kulminator
- Chimay Bleue 1995
- Chimay Bleue 2005
- Chimay Bleue 2015
- Orval 2005
No Café Trappisten
- Westmalle Half & Half (Dubbel + Tripel)
Daniel,
Mais uma etapa dessa viagem… show de bola.
Muito bacana essas passagens pelas trapistas, ainda mais com o monge tentando puxar papo… será que ele queria ser resgatado? hehehe
E essa degustação de chimay… é pra deixar qualquer um de queixo caido… muito bom
Abç
Guzzon
Fala Guzzon!
Acho que o monge queria era recrutar hahaha
Agora tenho uma Chimay dessas guardada pra tomar quando fizer 10 anos… se pudesse tinha uma área com várias de vários tipos, mas haja espaço!
Valeu!
A pergunta que não quer calar na Europa: aonde achar um banheiro? Mas dessa vez valeu porque você descobriu a “hú-ghaar-den”. Diz aí vai, quanto custou a degustação vertical? Muito gente boa esses monges da Zundert, heim? 94 anos, pouco sexo e muita cerveja é o segredo da vida, não exatamente nessa proporção eu acho 😀
Minha semana passada foi complicadíssima e ainda tenho que voltar pra ler o episódio anterior. Valeu, ótimo texto Daniel!
Fala Anselmo!
Senti falta do teu comentário no post passado mesmo hehe
Então, não falei quanto foi a degustação, porque realmente esqueci! Acho que foi 30 euros, mas não sei se era isso mesmo. E não tenho certeza, mas acho que a Orval 2005 foi 10 euros. De novo, to chutando.
Os monges todos são muito gente boa. Deve ser pela falta de preocupação e muita cerveja boa, só pode.
E acho que o melhor lugar pra encontrar um banheiro é um bom bar… o problema é querer ir embora depois.
Valeu!
Eita que desta vez vc pisou mais um pouco no leitor… tomei envelhecidas, pqp! Rs…
Anotado!
hahahaha
Espero que esse seu “anotado” não seja no caderninho das vinganças. Desse jeito não vou conseguir ir mais pra são paulo
É no caderninho da inveja rs…
Cada semana que passa, mais eu quero mudar meu roteiro e estender minha estadia na Bélgica! ahhaha
Infelizmente, nessa minha ida, não vou conseguir fazer metade do que você fez! Quem sabe da próxima, minha noiva não tope fazer um tour cervejeiro desses?!
Abração e ansioso por semana que vem, pois Amsterdam é um dos meus destinos também!
Fala Luis!
Cara, vale a pena sim fazer o tour. Eu mesmo voltaria novamente pra visitar OUTROS bares e cervejarias, porque é muita opção boa!
E Amsterdam já apareceu também no primeiro post da série, dá uma conferida lá!
http://beercast.com.br/leia-o-rotulo/viagens-cervejeiras/turista-sofre-tour-cervejeiro-belgicaholanda-parte-1/
Abraço