Brasil Cervejeiro, a história! – Parte 1

Por | 9 de março de 2015

Muito se fala sobre a história da cerveja no mundo e nos países que melhor a representam mas pouco se ouve sobre o início da cerveja no Brasil. A coluna de nerdices cervejeiras inicia hoje uma série de postagens que irá abordar como a cerveja chegou no nosso país e o sua cronologia, além de demonstrar o surgimento das cervejarias.

Brasil

Amigos leitores, semana passada passei por mais um contratempo e não vou perder tempo me desculpando mas agradeço a paciência de vocês como sempre. Quem me acompanha nas redes sociais, pode já ter presenciado minha revolta por aquelas cervejarias que ostentam algum título de “mais antiga” do Brasil, sabe lá se por quê elas fazem isto! Pretendo nestas futuras postagens, não sequenciais, abordar este assunto e falar sobre a verdadeira história da cerveja nacional, dando crédito a quem realmente merece. A parte 1 irá apresentar de forma geral como esta bebida chegou no nosso país e a quem podemos agradecer!

O que se difunde hoje, na maioria, como sendo história da cerveja no Brasil pode ser resumido a Cervejaria Bohemia, que se declara a mais antiga no país. A cerveja está no Brasil há muito mais tempo que pudemos imaginar e, como toda história nos mostra, ela teve seus altos e baixos.

BrasilNão há motivo para dissertar aqui tudo em seus mínimos detalhes pois isto fica a cargo do blog “Cervisiafilia“, do autor Carlos Alberto Tavares Coutinho. Este excelente blog serve de inspiração para trazer a história da cerveja no Brasil para esta coluna de nerdices cervejeiras pois o autor Carlos Alberto faz um trabalho sem igual em termos de pesquisa no território nacional, reunindo uma cultura espalhada em um só local para nós.

Presente em todos os continentes na sua época, a Companhia das Índias Orientais foi responsável por trazer as primeiras cervejas ao Brasil junto com os Holandeses porém desaparecendo em 1654 por quase 150 anos. Somente em 1808 a Família Real portuguesa trouxe de volta a cerveja ao país, que até então tinha uma preferência de consumo por cachaça, licores e vinhos. A cerveja demorou a regressar ao Brasil por causa dos comerciantes portugueses, que temiam perder as vendas de seus preciosos vinhos com a chegada da bebida popular.

Dom João, sendo um grande apreciador de cerveja, decretou a abertura dos portos para outras nações neste período, abolindo o monopólio comercial ali existente. Por outro lado houve um favorecimento as importações inglesas, fazendo com que os produtos de lá se tornassem mais populares e gerando assim um novo comércio monopólico. As Ales inglesas logo dominariam o mercado nacional, pela exclusividade nas importações, e cervejas de outros países tinham que ser comercializadas através do Reino Unido, aumentando os custos e tornando a pratica inviável.

Fazendo um contraponto com as cervejas enviadas a Índia, pode-se concluir que o longo transporte não influenciava em tamanha proporção para que mais lúpulo fosse adicionado em favor a conservação, muito menos a relação de nomear a cerveja de India Pale Ale. Afinal, o Brasil também é um país de clima tropical e nada se menciona sobre uma lupulagem extra nas cervejas que aqui chegaram de forma semelhante a vendida na Inglaterra, caso contrário hoje eu poderia beber uma Imperial Brazil Pale Ale!

BrasilEm favorecimento a um mercado mais “equilibrado” os impostos foram aumentados no Brasil, um costume antigo pelo visto, de forma que a importação em geral se tornasse inviável. O início da produção caseira/artesanal de cerveja no Brasil devemos aos imigrantes que aqui foram chegando no século 19. A única vantagem desta regulagem foi o desenvolvimento da produção de cerveja nacional porém a alta nos impostos também deixou o país sem as principais matérias primas, a cevada e o lúpulo, e desta forma a cerveja começou a ser a base de arroz, milho, trigo e ervas.

Neste período surgem as “Cervejas Marca Barbante“, produzidas no Brasil e comercializadas para o povo. O nome foi devido as garrafas possuírem um barbante que prendia a rolha, evitando que esta saísse com a alta pressão causada pela fermentação intensa, tal qual a “gaiola” na rolha da garrafa de champanhe. Era comum que as cervejas, mesmo importadas, não tivessem nome de identificação e assim se referissem apenas a venda nos anúncios e a alguma característica em específico.

BrasilAs cervejas marca barbante se popularizaram por dois nomes/estilos, Gengibirra e Caramuru. A primeira feita com farinha de milho, gengibre, casca de limão e água, enquanto a segunda era feita de milho, gengibre, açúcar mascavo e água. Ambas bebidas fermentavam por algum tempo, ficaram populares por possuir baixo teor alcoólico e serem refrescante, elas eram vendidas em garrafas ou canecas.

Antes de 1850 a produção caseira era comum mas atendia somente a família ou comunidade local, pequenas cervejarias artesanais surgiram neste período, principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e no território Sul. Não demorou muito para que fusões acontecessem e cervejarias com escala industrial surgissem.  A produção local usava muito milho, trigo e outros derivado assim como uma cerveja americana derivada das alemãs porém as cervejas provindas da Alemanha começaram a surgir somente depois de 1870, quando as importações voltaram a crescer. Estas novas cervejas, assim como no resto do mundo, despertaram interesse por possuir uma aparência melhor, um sabor mais leves e serem de fácil armazenagem, tornando-se rapidamente popular mas novamente por causa de alta nos impostos tendo sua importação interrompida pouco tempo depois.

BrasilDando um salto maior, a partir de 1980 o mercado Brasileiro começa também a vivenciar o renascimento da cerveja e é influenciado pelo movimento da “cerveja artesanal” ou “craft beer“, como conhecido usualmente. O Brasil na era moderna de sua história é protagonista de uma gigantesca fusão cervejeira, dando vida a AmBev e posteriormente a InBev, empresa que se consagra como maior produtora de cerveja no cenário mundial. Há ainda um capítulo a parte da cerveja no Brasil com a história da Skol Internacional, que trouxe diversos avanços em questões de produção em massa e difusão de marca.

Contudo, registros apontam para a produção de cerveja desde 1640 e outras obras literárias, cartas, registros e documentos afins montam a história da cerveja no Brasil, demonstrando a base desta indústria nacional que se consolidou a maior do mundo!

O Brasil não foi tão influente na história da cerveja mas desde as “super fusões” tem desempenhado um papel importante no futuro do mercado cervejeiro e atualmente possui um mercado emergente das ditas cervejas artesanais. Por tanto nas próximas postagens a coluna de nerdices irá explorar com mais detalhes diversos alicerces desta história a ser contada no Brasil.

Saúde!

8 comentários para “Brasil Cervejeiro, a história! – Parte 1

  1. Anselmo Mendo

    Estou interessado nesse ramo da história que trata dos anos 1640, hein. Muito legal também o lance da Cervejas Marca Barbante, será que isso explica algo sobre o nome dessa nova “Academia Barbante de Cerveja” aqui de São Paulo? Outra coisa interessante, será que a Gengibirra e Caramuru tinham sabor de cerveja? Ou será que se pareciam com o que?

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  2. Fabrizio Guzzon

    Luquita, ótimo post!
    Muito legal ver as origens da cerveja no Brasil sendo tratadas mais a fundo e entender que o uso do milho e outros adjuntos não é novidade. Sem falar na explicação da origem do termo “marca barbante”… que ainda é usado no interior para se referir a produtos de baixa qualidade.

    Abç
    Guzzon

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    1. Luquita da Cerveja Autor

      Guzzon, não sabia que ainda usavam por ai a expressão. Alguém poderia fazer uma cerveja com esse adereço, eu imagino a Bodebrown fazendo. Pena o Brasil não ter continuado a linhagem de cervejas inglesas porém como tudo nada de bom ficou rs.

      Alias a próxima cerveja da confraria poderia ser uma Imperial Brazil Pale Ale rs

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      1. Fabrizio Guzzon

        Cara, uma Imperial Brasil Pale Ale ficaria demais… qual seria a adição para dar o toque brasileiro?

        Abç
        Guzzon

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  3. Daniel Córdova

    Fala Luquita!
    Muito legal o post. Realmente curiosa a história da cerveja no Brasil.
    Fiquei com vontade de tomar uma Gengibirra. Tinha um mercadinho perto de casa que vendia um refrigerante com esse nome, mas nunca mais achei.
    Abraço!

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