A Cerveja com Inteligência Artificial

Por | 15 de julho de 2017

Talvez esteja mais perto de uma experiência de marketing do que tecnológica, apesar disso acredito que já podemos dizer que temos no mundo uma cerveja com desenvolvimento orientado por uma Inteligência Artificial (AI, em inglês). Claro, não se trata de um David, de “IA” do Spielberg, nem alguém do naipe do HAL de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, muito menos da Samantha de “Ela”. Mas ainda assim é isso o que oferece a empresa IntelligentX Brewing CO, do Reino Unido: uma bebida que melhora a cada produção conforme a opinião dos clientes e através da intermediação de um software inteligente. A IntelligentX é uma parceria entre a Intelligent Layer, uma empresa que desenvolve tecnologia para aprendizado de máquina e a 10x, que se define como consultoria de inovação baseada em dados.

Eles criaram 4 tipos de cervejas chamadas Black AI, Golden AI, Pale AIe AI e Amber AI. A produção é de apenas 1.000 litros por lote e a venda é feita em eventos de tecnologia, e outros pouquíssimos pontos, por £ 4,50 a garrafa. A grande sacada é que o rótulo vem com um link para feedback, onde o cliente entra no aplicativo Facebook Messenger e responde a 10 perguntas, geradas por um robô, que variam de “Como você avalia seu conhecimento sobre cerveja?” a “Você gostaria que a cerveja tivesse mais ou menos aroma de lúpulo?”. A IntelligentX disse que 80 por cento dos clientes seguiram o link e que isso gerou mais de 100.000 entradas de dados. As informações colhidas foram analisadas pelo software e, até o momento, utilizadas para fazer mais de 25 correções nas bebidas.

Algumas das cervejas mudaram significativamente. As receitas originais eram resultado de um ano de testes de fermentação e eventos fechados. A mais popular, a Pale Ale, passou de um teor alcoólico de 5,6%, característico do estilo inglês, para uma cerveja com 4% de álcool, que lembra as Pales americanas. Isso parece refletir as tendências atuais do mercado de cervejas artesanais e o interesse por bebidas de baixo teor de álcool. Ponto para algoritmo de AI.

Eles também incluíram outros 1000 ingredientes que funcionam como curingas e podem ser adicionados aleatoriamente nas receitas para manter a vivacidade das cervejas e ensinar o programa. Foi produzida, por exemplo, uma versão da Amber AI com toranja e como o retorno foi muito positivo, o algoritmo passou a saber que a fruta é uma boa opção para utilizar no produto.
As ales são produzidas na Cervejaria cooperativa UBrew em Bermondsey, Londres (essa empresa merece um post exclusivo aqui no nosso blog, já que tem um sistema que aluga equipamentos, espaço e fornece insumos para que cervejeiros caseiros façam sua própria bebida, um modelo de negócio que talvez funcionasse bem no Brasil). O cervejeiro que coloca a mão na massa para produzir as AI’s tem autonomia para rejeitar os conselhos do algoritmo, mas claro que a ideia não é essa. O esforço todo é pra convencer as pessoas de que é possível fazer  excelentes cervejas desse jeito.


Os fundadores da IntelligentX, Hew Leith, que é PHd em aprendizado de máquinas pela Universidade de Oxford, e Rob McInerney, dizem que esta tecnologia, claro, é “um facilitador, mas não um substituto para as pessoas”. O teste real para o negócio virá quando as cervejas estiverem disponíveis para além da comunidade de tecnologia, que compõe a base de clientes atual.

Os sócios tem planos mais audaciosos e imaginam o cenário ideal onde os dados seriam coletados de bar em bar para descobrir exatamente o que os bebedores querem. Num pub inteligente do futuro os clientes usariam óculos conectados ao robô de AI e, segundo eles, seria possível saber o quanto beberam, a que temperatura, quão rápido, quanto foi deixado no fundo do copo e muito mais.

Há algo de bem inspirador no ideal desses caras.  Eles se diziam frustrados com o modo como as cervejarias multinacionais usam os dados dos clientes, pegando informações para anunciar produtos que não mudaram nada durante anos. A nova lógica deveria “usar os dados não para alterar os anúncios de produtos, mas sim para mudar o próprio produto para melhor”.
Talvez pareça uma maluquice agora, mas seria bem legal se pudéssemos beber aquela cerveja perfeita, no nosso bar e mesas perfeitos, exatamente como sonhamos, não é?
Em breve pagaremos pra ver!

A dica de leitura que inspirou este texto foi sugerida pelo Mauro Segura, Diretor de Marketing da IBM, convidado do BC #151.

Fontes:
http://www.Intelligentx.ai
http://www.IntelligentLayer.com
http://www.weare10x.com/portfolio_page/intelligentx/
http://www.wired.co.uk/article/beer-brewed-by-ai-intelligentx
https://www.bloomberg.com/news/articles/2016-12-15/your-next-beer-might-be-made-by-artificial-intelligence
http://time.com/4399118/robot-beer-brewing/
https://www.ft.com/content/ffc3a680-4582-11e7-8d27-59b4dd6296b8?mhq5j=e1
https://ubrew.cc/

3 comentários para “A Cerveja com Inteligência Artificial

  1. Fabrizio Guzzon

    Anselmo,

    Agora eu tenho finalmente um incentivo para terminar aquele curso de Machine Learning que eu tinha começado… rsrsrsrsrs

    Abç
    Guzzon

    Responder
  2. Daniel Córdova

    Que interessante.
    Talvez esse tipo de algoritmo não gere a melhor cerveja do mundo na avaliação de grandes especialistas de cerveja, mas sim uma cerveja que agrade igualmente na medida do possível a todos os públicos.
    Bem legal o texto, Anselmo.
    Abraço!

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    1. Anselmo Mendo Autor

      Valeu Daniel. Nesse caso aí, acho que o principal objetivo dos caras é mesmo marketeiro. Uma das empresas dona da IntelligentX é a desenvolvedora do algoritmo. Eles vendem soluções de IA para diversos segmentos e os mais variados fins. Me parece que fazer o lance com a cerveja foi um jeito de divulgar massivamente o produto da empresa. Vamos ver se continuamos a ouvir sobre eles no futuro. Abs.

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